Texto X
UM SONHO DE LIBERDADE

Desfiz-me de braços e pernas
quando boliei os estribos...
Ao suspiro derradeiro
que precedeu o balaço certeiro
na testa de meu amigo!...
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O comando veio de riba
da elite estancieira...
Se não havia igualdade
na taxação do couro e do charque,
justiça e autonomia...
Cabia aos filhos da pampa
pegar em lanças e espadas
pra mostrar que a terra tinha dono
e por supuesto muy valia...
E, assim, ecoam ideais franceses:
Égalité, Fraternité e Liberté
na República Rio-Grandense
que neste pago nascia...
Aos poucos, uma legião de centauros
vai povoando a querência...
Índios, negros, estancieiros
e uma tropilha de estrangeiros
vão fortalecendo a existência
desta bendita guerra santa,
surgindo uma nova estampa
do Pavilhão Tricolor...
Única terra que se morre
por um verdadeiro amor...
Pois também luta pelos seus
quem oferece sua espada
em louvor a lealdade
defendendo a Humanidade
e os mandamentos de Deus.
Era negro meu tordilho
daqueles que não se fazem mais...
Éramos ponteiros do inferno
nunca ficamos pra trás...
A batida de seus cascos
era a junção dos campassos
entre suas patas e meu coração...
Toda explosão de seus músculos
dava força ao meu braço
pra me defender de um puaço
ou abrir algum pulmão...
Estribuchando minhas botas
em seu olhar enviezado,
já sabia qual o comando
meu fiel escudeiro
e mais perfeito soldado...
Um Centauro não temia
o que viria mais à frente...
Éramos apenas um ser
metade homem, metade potro,
um precisava do outro para conseguir viver...
Já no final da guerra
a cousa não andava bem...
Os farrapos reclamavam,
de tanta fome saqueavam
e não obedeciam ninguém...
Onde andariam os ideais
de igualdade entre os gaúchos?
Onde andaria o respeito
e o sentimento humanitário
dessa vida simples, sem luxo?
Mas quando a fome bate na gente
não há vivente que aguente
e nem há razão insistente
que nos ajude a pensar...
Mirei-o fundo nos olhos,
acariciei suas crinas,
encostei-me na testa dele
para pedir seu perdão...
Chorando... puxei o gatilho
num gesto de desespero,
matei o melhor de mim
- meu tordilho companheiro -.
Depois ganhei esta farda
com brasões sem importância,
pois já não serve pra nada
ser por todos respeitado
e estar longe de quem se ama...
Era noite de novembro lá no cerro de Porongos...
Era tempo de armistício e a guarda relaxou,
com certeza não imaginou a imperial armadilha,
pois o Brasil não queria o fim da escravidão...
Um ataque! Uma intenção! Exterminar
todos os negros da esquadra farroupilha...
Com a alma de Centauro
não abandonei meus irmãos...
Foi o Império ou a República
que cometeu traição?...
Hijos de la putana! Matar, assim, covardemente...
Seria o fim da esperança e dos sonhos de nossa gente?
De repente um balaço e mais outro de raspão...
Pulei tal qual um leão no pescoço do malino
e mostrei o seu destino num soco firme no meio...
Mas o cerco foi se fechando
e os lanceiros que iam tombando
era como um pedaço da gente
que iam nos retirando...
Fogo! Fumaça! Tombores! Vozes de uma África antiga!
Os gritos de liberdade não poderiam calar...
Lanças batidas ao peito ao som de um idioma ancestral...
Não importa mais o final...
Pois quem luta por liberdade nunca foge nem se entrega.
O sangue afogava os olhos e uma raiva de animal tomava conta da gente!
Risos diabólicos para um fim já iminente...
Mais um estouro! Um tombo! Uma lágrima!
De quem não tinha mais nada a perder...
A saudade de meu pingo bateu mais forte em meu peito.
E com ela a última lágrima teimou em me pegar de jeito...
Meus companheiros no chão e meu pingo na constelação
a velarem os últimos compassos de meu pobre coração.
A luta não foi em vão!?... Sim senhores, mais tarde
viria então igualdade com pessoas mais fraternas e um mundo com humanidade?!...
A morte beijou-me a vida diante a artilharia,
mas ahhh... Eu sou Gaúcho! E esta é minha verdade!
Ficaram na história meus sonhos e os gritos de <<Liberdaaadddeeeee>>...!!!
Samuel Maciel