Texto X

06-04-2013 14:14

 

UM SONHO DE LIBERDADE

 

Desfiz-me de braços e pernas

quando boliei os estribos...

Ao suspiro derradeiro

que precedeu o balaço certeiro

na testa de meu amigo!...

 

....................................................

 

O comando veio de riba

da elite estancieira...

Se não havia igualdade

na taxação do couro e do charque,

justiça e autonomia...

Cabia aos filhos da pampa

pegar em lanças e espadas

pra mostrar que a terra tinha dono

e por supuesto muy valia...

E, assim, ecoam ideais franceses:

Égalité, Fraternité e Liberté

na República Rio-Grandense

que neste pago nascia...

 

Aos poucos, uma legião de centauros

vai povoando a querência...

Índios, negros, estancieiros

e uma tropilha de estrangeiros

vão fortalecendo a existência

desta bendita guerra santa,

surgindo uma nova estampa

do Pavilhão Tricolor...

Única terra que se morre

por um verdadeiro amor...

Pois também luta pelos seus

quem oferece sua espada

em louvor a lealdade

defendendo a Humanidade

e os mandamentos de Deus.

 

Era negro meu tordilho

daqueles que não se fazem mais...

Éramos ponteiros do inferno

nunca ficamos pra trás...

A batida de seus cascos

era a junção dos campassos

entre suas patas e meu coração...

Toda explosão de seus músculos

dava força ao meu braço

pra me defender de um puaço

ou abrir algum pulmão...

Estribuchando minhas botas

em seu olhar enviezado,

já sabia qual o comando

meu fiel escudeiro

e mais perfeito soldado...

Um Centauro não temia

o que viria mais à frente...

Éramos apenas um ser

metade homem, metade potro,

um precisava do outro para conseguir viver...

 

Já no final da guerra

a cousa não andava bem...

Os farrapos reclamavam,

de tanta fome saqueavam

e não obedeciam ninguém...

Onde andariam os ideais

de igualdade entre os gaúchos?

Onde andaria o respeito

e o sentimento humanitário

dessa vida simples, sem luxo?

Mas quando a fome bate na gente

não há vivente que aguente

e nem há razão insistente

que nos ajude a pensar...

 

Mirei-o fundo nos olhos,

acariciei suas crinas,

encostei-me na testa dele

para pedir seu perdão...

Chorando... puxei o gatilho

num gesto de desespero,

matei o melhor de mim

- meu tordilho companheiro -.

 

Depois ganhei esta farda

com brasões sem importância,

pois já não serve pra nada

ser por todos respeitado

e estar longe de quem se ama...

 

Era noite de novembro lá no cerro de Porongos...

Era tempo de armistício e a guarda relaxou,

com certeza não imaginou a imperial armadilha,

pois o Brasil não queria o fim da escravidão...

Um ataque! Uma intenção! Exterminar

todos os negros da esquadra farroupilha...

 

 

Com a alma de Centauro

não abandonei meus irmãos...

Foi o Império ou a República

que cometeu traição?...

Hijos de la putana! Matar, assim, covardemente...

Seria o fim da esperança e dos sonhos de nossa gente?

De repente um balaço e mais outro de raspão...

Pulei tal qual um leão no pescoço do malino

e mostrei o seu destino num soco firme no meio...

 

Mas o cerco foi se fechando

e os lanceiros que iam tombando

era como um pedaço da gente

que iam nos retirando...

Fogo! Fumaça! Tombores! Vozes de uma África antiga!

Os gritos de liberdade não poderiam calar...

Lanças batidas ao peito ao som de um idioma ancestral...

Não importa mais o final...

Pois quem luta por liberdade nunca foge nem se entrega.

O sangue afogava os olhos e uma raiva de animal tomava conta da gente!

Risos diabólicos para um fim já iminente...

Mais um estouro! Um tombo! Uma lágrima!

De quem não tinha mais nada a perder...

A saudade de meu pingo bateu mais forte em meu peito.

E com ela a última lágrima teimou em me pegar de jeito...

Meus companheiros no chão e meu pingo na constelação

a velarem os últimos compassos de meu pobre coração.

A luta não foi em vão!?... Sim senhores, mais tarde

viria então igualdade com pessoas mais fraternas e um mundo com humanidade?!...

A morte beijou-me a vida diante a artilharia,

mas ahhh... Eu sou Gaúcho! E esta é minha verdade!

Ficaram na história meus sonhos e os gritos de <<Liberdaaadddeeeee>>...!!!

 

 

Samuel Maciel