Texto XXI
O maior de todos os medos



Na década de 1980, anos da Guerra Fria, o inimigo declarado dos Estados Unidos da América era a temida União das Repúblicas Socialista Soviéticas. Aqueles foram tempos sombrios, a ameaça de uma guerra nuclear povoava o imaginário das pessoas e era preciso estar preparado! Em muitos países houve quem construiu abrigos subterrâneos, comprou estoques de mantimentos e manteve reservas de água potável a espera do pior. A produção cultural da época registrou em diversos filmes, livros, manifestos, programas de TV, o horror e as consequências de um holocausto atômico. O medo, até no Brasil, era constante e então chamado de “o maior de todos os medos” – diziam que somente as baratas sobreviveriam! Mas, em 1989 a Guerra Fria acabou, e com ela o mundo socialista colapsado em uma grande crise política e econômica: virou história.
De lá pra cá o tempo passou, os Estados Unidos se consolidaram como a maior potência mundial: o maior PIB e o maior arsenal nuclear do mundo, líder supremo da ONU e mantenedor implacável do sistema capitalista e (mais moderado) do modelo republicano democrático. O Leste Europeu entrou para o clube e depois a China – ironicamente o atual modelo mais próspero do capitalismo é regido por líderes socialistas – parecia o fim do medo, uma Nova Ordem Mundial. É verdade que houveram outras guerras, mas elas foram reduzidas ao confortável nome de “conflitos”. Fosse na África, Oriente Médio, Ásia Central, América Latina e até mesmo Europa, parecia que apesar disto, estavamos todos seguros. Na maior parte desses conflitos, a intervenção norte-americana sob o escudo da ONU manteve as partes envolvidas em um delicado equilíbrio... e prosseguimos; Blocos econômicos prosperaram, crises surgiram, desigualdades se agravaram, ditadores ameaçaram, bradaram e caíram, mas nada abalava a confiança no novo milênio.
Até uma manhã de 2001, dia 11 de Setembro...
Quatro aviões sequestrados se transformaram no maior atentado terrorista da história: 2996 mortos e mais de 6 mil feridos. Mais do que um grande atentado, o 11 de Setembro atingiu o coração dos Estados Unidos, de lá em diante o medo retornou para assolar o nosso pequeno mundo ocidental. Os sistemas de vigilância, quase aposentados ao final da Guerra Fria, ressurgiram fortes e agora amparados pelos últimos recursos da internet e da revolução digital. Os países mais ricos voltaram a investir em sistemas de controle e segurança interna, em câmeras, escutas, espionagem, exércitos, armas, droides e míssies. O mundo inciava o terceiro milênio sob nova ameaça: o terror. E novas guerras foram travadas, e buscas e missões e capturas, execussões e paranóia: novos protocolos de segurança! Mas a violência prosseguiu, fez novas vítimas em Londres, na Espanha, Afeganistão, Iraque, Guantânamo! O medo estava de volta para todo o planeta.
Era 15 de Abril, final da tradicional Maratona de Boston, cidade histórica berço da imigração norte-americana e orgulhosa de sua história. Milhares de pessoas estavam nas ruas, era uma segunda-feira, Dia do Patriota, feriado que celebra o início da Revolução Americana. Quando próximo a linha de chegada, duas explosões, despertaram o (novo) maior de todos os medos: o terror! O terrorismo é a forma mais covarde de agressão. Trata-se de um ato ultraviolento, planejado e executado sobre um alvo incapaz, inconsiente e indefeso. Certamente na ótica social o terrorismo é um grito de revolta, mas é um grito distorcido que perdeu a humanidade. É selvageria insana! Em um ato terrorista, a vida de cidadãos comuns, muitas vezes alheios aos conflitos mundiais, é transformada em uma amarga estatística, em uma dor sem medida e em uma pergunta sem resposta: Por quê?
Os governos também sentem essa dor, mas fazem destas tragédias um poderoso catalizador de controle, de poder, de legitimição da guerra. Por excelência o terror é a violência que gera violência. Em breve haverá retalhações, mais conflitos, mais violência e mais mortes. Mas uma das perguntas hoje é mais forte: Quem executou o atentado da Maratona de Boston? Diferente de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, de 11 de Março de 2004 em Madrid ou de 7 de Julho de 2005 em Londres, quando a Al Qaeda assumiu os atos, agora temos silêncio. E o silêncio é amedontrador.
Enquanto não houver uma autoria, assumida ou indicada, o mundo aguarda e imagina: seria a Al Qaeda, resistente após a morte de Osama Bin Laden, ou seria o Hezbollah, ou ainda o Fatah al Islam, algum grupo ligado a jihad ou a libertação da Palestina? Ou seriam frutos das intervenções dos EUA na Síria? Ou novos grupos? Latino Americanos ou Africanos?
Ao imaginar nos damos conta que talvez fosse mais fácil aos Estados Unidos, enfrentar um só inimigo, como era na Guerra Fria... ah, bons tempos!
Mauríccio Paz